
A disseminação do novo coronavírus alterou os planos de Santa Catarina para a educação. Em fevereiro deste ano, o Estado se preparava para mais um ano letivo, Enem, provas e vestibulares.
Um mês depois, porém, a pandemia que já matou mais de 171 mil pessoas no mundo, obrigou as escolas e universidades a fecharem as portas por tempo indeterminado.
Como alternativa ao cenário de isolamento, estabelecimentos de ensino adotaram a educação a distância para dar continuidade no aprendizado.
A modalidade, porém, esbarra na dificuldade de acesso à internet pelos estudantes mais carentes, desconhecimento dos professores em relação ao novo método e falta de inclusão nos ambientes virtuais. O dilema, / expõe os desafios da rede no acesso à educação para todos.
No início do mês, quando tentava planejar o futuro da educação em meio à pandemia, o governo catarinense declarou que 42% dos alunos da rede estadual não tinham computador em casa. Outros 18% dos alunos não possuíam, sequer, acesso à internet.
Ainda assim, na tentativa de acompanhar os 540 mil estudantes matriculados e não perder o ano letivo, a Secretaria de Estado de Educação operacionalizou atividades remotas.
Elaborado rapidamente, o sistema começou a operar em 6 de abril. Desde então, os formulários de questões, documentos, chats, planilhas e outros estímulos passaram a ser inseridos como horas-atividade no calendário escolar. No entanto, os exercícios não são constantes e variam de professor para professor.
Para o estudante do 2º ano do ensino médio Gustavo*, 16 anos, a plataforma do Google Classroom trouxe pouca novidade até agora. Além de fáceis e simples, os conteúdos não contemplam todas as matérias e nem mesmo trazem novos assuntos.
“Alguns professores estão passando algumas atividades, mas bem de vez em quando. [As tarefas] são bem simples. Na disciplina de Artes, por exemplo, só tivemos que pesquisar fotos de Portinari e dizer a nossa opinião”, revelou o aluno da Escola Aníbal Nunes Pires, em Florianópolis.
Vitor Fungaro Balthazar, secretário-adjunto do Estado da Educação, explica que a iniciativa do ambiente virtual vai ao encontro da Medida Provisória 934/2020. O documento, publicado em 1º de abril, com base na situação atual de distanciamento social, tenta nortear as instituições sobre o momento ímpar vivido no Estado, no país e no mundo.
Segundo Balthazar, o ensino remoto que está sendo implantado não tem os mesmos recursos de um sistema Ead (Ensino a Distância) – que é pensado e preparado para este fim. Na avaliação do gestor, a iniciativa busca apenas “estimular os alunos” a realizar atividades neste período excepcional.
Na normativa, escolas de educação básica foram desobrigadas a cumprir o mínimo de 200 dias de efetivo trabalho escolar. A carga horária mínima anual que deve ser efetuada é de 800 horas por ano letivo. A MP, porém, não detalha como os conteúdos que fazem parte do currículo devem ser repassados neste período.
Acesso precário, afirma professora
Apesar do esforço do Estado, mesmo aqueles com acesso à internet podem não conseguir aprender em tempos de coronavírus. Segundo a professora de sociologia Suzana Uilano alguns de seus estudantes não não tem internet em casa. A frustração, na avaliação da docente, pode aumentar a evasão escolar.
“Tenho aluno que tem computador, tenho aluno que só tem um celular para a família toda. E teve um que me disse que não ia fazer nenhum exercício porque não tinha memória no celular”, diz a professora que trabalha em duas escolas estaduais de São José.
Em Santa Catarina, a taxa de abandono no ensino médio nas escolas estaduais foi de 6,4% em 2018. O índice nacional no mesmo período foi de 6,1%. O Estado ficou na pior posição em termos de distorção idade/série entre 2012-2017, quando alunos se formam fora da idade adequada no ensino médio.
“Eles não tem comida, imagina internet”
Em outro trecho da entrevista, a professora Suzana levanta a hipótese de que a iniciativa estadual ignora um dos principais princípios da educação pública: a universalidade. De acordo com a educadora, com diferentes condições de acesso aos conteúdos, alguns alunos podem ficar ainda mais para trás.
“Meus alunos mandam mensagem perguntando se a escola vai dar cesta básica. Eles não têm comida, imagina internet”.
O secretário-adjunto do Estado da Educação, Vitor Fungaro Balthazar, não nega que há dificuldades, mas justifica que a realidade da evasão escolar está presente mesmo no ensino presencial. “Se conseguirmos atingir 90% [dos estudantes], acho que é um feito e tanto”, avaliou.
“Estamos trabalhando diuturnamente para chegar neste objetivo. É claro que este seria o mundo ideal, e nós temos que trabalhar no mundo real. Nós estamos dando a oportunidade, os meios para que todos eles sejam atingidos e, de fato, esse período de isolamento consiga também trazer aprendizado aos estudantes”, disse Balthazar.
“Agora, se nós vamos conseguir 100% e se todos vão conseguir, isso nós vamos poder mensurar quando a situação voltar ao normal”, completou.
Entrega de livros e apostilas
Desde a última segunda-feira (13), as escolas estão entregando apostilas, livros e outros impressos aos alunos que não têm acesso à internet.
Apesar da orientação para respeitar as normas de segurança da OMS, a iniciativa acabou provocando aglomerações em algumas escolas.
Na Escola de Educação Básica Irmã Edviges, em Criciúma, vários alunos fizeram fila na entrega dos materiais na manhã de segunda.
“Isso coloca em risco tanto a saúde dos trabalhadores que estão lá para distribuir as atividades presenciais quanto da unidade familiar”, disse Carlos Vieira, secretário de Assuntos Educacionais e Culturais do Sinte/SC (Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Santa Catarina).
Falta de estrutura
Professor de física no ensino superior, médio técnico e na rede estadual, Sandro Silva Livramento Machado está apreensivo ao modificar as aulas para o ambiente virtual. E mesmo com pouco treinamento, falta de estrutura e muitas dúvidas sobre o universo de ensino a distância, o professor se prepara para atender seus alunos através de uma tela de computador.
Com isso, o resultado das suas aulas são um mistério. “Não me sinto preparado. Eu tenho 20 e poucos anos dentro de sala de aula e não tenho a didática para a modalidade Ead, pois ela quebra muito desta relação pedagógica que eu tenho com os meus alunos’’, afirma.
Apesar de não ser o caso de Sandro, o professor também pontua que há professores da rede que possuem pouco ou nenhum acesso à internet. Dados divulgados do banco da secretaria de Educação mostram que 8% dos professores afirmaram não possuir ferramentas necessárias para construir as atividades virtuais.
Para resolver o problema, o governo afirmou que os docentes podem marcar dias e horários para utilizar computador e internet nas escolas. Segundo o secretário-adjunto Vitor, a secretaria também disponibilizou formação docente de 40 horas com módulos sobre planos de aula no meio digital.
O treinamento começou no dia 2 e segue até 17 de abril. O secretário-adjunto pediu para que os professores “façam o melhor dentro daquilo que se tem como ferramentas, como suporte e como condição”.
Contrário às atividades remotas neste período de pandemia, o sindicato rebate que a formação para atividades com auxílio das tecnologias já foi solicitado outras vezes pela categoria:
“Nós sempre brigamos por esta capacitação, pois isso faz parte da nossa função, mas o Estado nunca se preocupou em dar uma formação continuada sobre isso. Agora, eles querem dar goela abaixo”, criticou Carlos Vieira, do Sinte.
Abismo entre ensino público e privado
Outra preocupação do Sinte é o abismo que pode se criar entre a edução pública e privada. Para o sindicato, os alunos na rede privada se enquadram em classes sociais mais altas e possuem mais equipamentos tecnológicos. A realidade do outro lado, no entanto, é diferente.
“Vai aumentar essa diferença. Na prática, é um modelo híbrido entre ensino a distância e precarização”, problematiza.
Dados do último Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) mostraram que a nota geral para a rede estadual de Santa Catarina foi de 3.6 no ensino médio. Já rede privada, a média foi 6.0. Os números foram colhidos em 2017.
O indicador do Ideb foi criado pelo governo federal para medir a qualidade do ensino e projetar o desenvolvimento da educação no país. No Brasil, a nota para escolas estaduais no ensino médio foi de 3.5 e das públicas de 5.8.
O secretário-adjunto, porém, discorda da afirmação e defende que a iniciativa pode aproximar o nível entre os estudantes das instituições públicas e privadas.
“Eu penso que o estudante da escola estadual, a partir do momento que tem a oportunidade de interagir, executar e construir de maneira remota e de maneira digital, ele está chegando mais próximo da realidade dos outros”, afirma Balthazar.
Inclusão prejudicada
Beatriz*, 10 anos, é aluna do quinto ano na rede estadual e convive com dislexia (dificuldade para compreender a leitura). Em tempos normais, conta com a ajuda de uma segunda professora nas atividades dentro da sala de aula.
No período da Covid-19, ela faz os exercícios sozinha. Ela está com dificuldade e afirma que a sua professora ainda não entrou em contato.
“Tem um monte de coisa difícil para fazer. As que eu não consigo, eu pulo e deixo assim mesmo. Vou deixar no caderno e quando voltar para a escola, vou pedir ajuda”, comentou a menina que mora em São José.
A Secretaria do Estado da Educação garante que o ensino remoto é apenas em regime excepcional e que o momento é de adaptação, transição e aprendizagem coletiva. De acordo com a pasta, o ajuste também inclui alunos que possuem deficiência.
Um ofício publicado em 2 de abril traz orientações e normas aos profissionais que atuam nas diversas áreas e serviços da Educação Especial. No documento, a pasta sugeriu adaptações pedagógicas diferenciadas voltadas ao apoio para a implementação das atividades. Os alunos da Educação Especial estão contemplados nas salas de aula criadas no Google Classroom.
IFSC
Em um outro cenário, com menos alunos e um ambiente virtual já consolidado, o IFSC (Instituto Federal de Santa Catarina) permanece com o calendário de 2020 mantido. Por enquanto, os alunos fazem algumas atividades não presenciais, mas uma votação marcada para o dia 27 de abril irá decidir o cancelamento das aulas neste ano.
O pró-reitor de Ensino, professor Luiz Otávio Cabral, reconhece as dificuldades enfrentadas pelos estudantes da instituição, mas acredita que a melhor solução é não “abandonar os alunos”.
A instituição em Santa Catarina é uma das oito do Brasil que ainda não definiu a suspensão do calendário de 2020. Os estudantes também podem solicitar auxílio internet durante período de distanciamento social. O valor da ajuda é de R$ 70 por mês e será distribuído até o fim da pandemia.
“Na verdade, nós fizemos o mais difícil, que é manter as aulas, mas a gente sabe que a nossa realidade é diferente. Sei que não é o ideal, mas a nossa maior preocupação foi acompanhar os nossos alunos nesse período de pandemia, para não deixar que eles parem de estudar. É o que dá para fazer”, disse Cabral.
No início do mês, o IFSC também divulgou o resultado de uma pesquisa sobre as medidas adotadas neste período. Apenas 21% dos estudantes acessaram o formulário. O resultado trouxe uma perspectiva sobre as atividades virtuais.
Ao menos 62% dos alunos que responderam o questionário concordam que a instituição mantenha o calendário com atividades não presenciais.
UFSC e Udesc
A Udesc deve continuar com as aulas suspensas até 20 de abril. A instituição ainda estuda alternativas para reposição das aulas. Já a UFSC prorrogou as atividades acadêmicas e administrativas presenciais até 30 de abril.
Glossário
- Ensino a distância: Na educação, o ensino a distância é classificado como um conjunto de normas e estratégias estruturais, com apoio de tutores, e diversos recursos feitos para o ensino virtual. Atividades, avaliações e interações pedagógicas são pensadas exclusivamente para a tela do celular ou computador.
- Ensino remoto: segundo a Sed, foi criado para que a rede continue realizando atividades diante do atual contexto. Em um comunicado à reportagem, a pasta afirmou que este ciclo de aprendizagem “será concluído após a retomada das atividades presenciais, com a interação de professores e alunos em torno dos conteúdos trabalhados”.
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