Por: Ana Carolina Souza | 11/06/2018

A segunda-feira (11) será de recomeço para as famílias que perderam praticamente tudo que tinham no incêndio que atingiu seis casas, destruindo completamente quatro delas, na noite de sábado (9), às margens da via conhecida como PC3, no Jardim Atlântico, em Florianópolis. Não há vítimas, mas pelo menos 22 pessoas que ficaram desabrigadas foram acolhidas por vizinhos.

Mutirões para arrecadar roupas e alimentos estão sendo organizados por moradores e entidades. A Prefeitura de Florianópolis deve se reunir esta semana para tratar da reconstrução do local. A área atingida pelo fogo já havia sido considerada de risco em 2012, mas apesar de ter local e projeto para remoção das famílias, as novas moradias nunca saíram do papel.

Sabrina Cabral Barbosa, 30, que morava na casa onde começou o incêndio, não sabe como será o recomeço. Foi só no meio da tarde deste domingo que recebeu algumas roupas doadas pela vizinhança. “Não sai com nada, só deu tempo de pegar as crianças e correr”, lembra ao lamentar que até mesmo o salário e documentos pessoais se foram com as chamas.

O incêndio começou perto das 21h30, quando Sabrina e mais uma prima preparavam um entrevero para comer com as crianças. “O botijão começou a vazar e subiu uma labareda de fogo. Eu tentei abafar com uma toalha molhada, tentei jogar o botijão para fora, mão não deu”, lembra. Na casa estavam, além de Sabrina e a prima, os dois filhos e uma irmã. Além da casa, a família também perdeu o carro e o dinheiro que guardavam para fazer uma reforma. “Eu e meu marido estávamos guardando para fazer uma peça de material nos fundos. O dinheiro estava dentro de uma lata”, completou Sabrina.

Construídas com madeiras, muitas delas já deterioradas pelo tempo, as casas foram consumidas rapidamente pelo fogo. Foram necessários 30 minutos —tempo que o Corpo de Bombeiros levou para chegar ao local— para tudo virar cinzas.

Antes do socorro chegar, moradores da comunidade até se reuniram para ajudar. Um dos moradores, vizinho das casas atingidas, gastou toda a água que tinha na caixa d’água para manter o muro resfriado. Juntos, conseguiram evitar que outras moradias fossem atingidas. Alguns animais de estimação acabaram não conseguindo fugir e morreram carbonizados.

“Precisam de tudo. Eles não têm nem o básico”, pede voluntária

No domingo, a luz do dia revelou o cenário da destruição. Em meio às cinzas, de ferros retorcidos, carcaças de fogões e geladeiras, moradores removiam os entulhos para facilitar a limpeza da área e evitar que um córrego que corta a região atingida fosse assoreado.

Às margens da avenida Juscelino Kubitscheck, em frente à comunidade atingida, foi improvisado local para receber doações. “Eles precisam de tudo, roupas, comidas, materiais de construção. Eles não têm o básico para passar esses dias”, conta Tânia Maria Ramos, líder comunitária que ajuda na organização e recolhimento de suprimentos.

Uma equipe da prefeitura esteve no local ainda na noite de sábado. Foram oferecidos cobertores e abrigo, mas os moradores preferiram ficar na casa de vizinhos. Nesta segunda-feira (11), uma equipe da Comcap deve ir até o local para remover os escombros.

Os incêndios na comunidade não são raros. No entanto, o do último sábado foi o maior, dizem os moradores. O último incêndio de grandes proporções foi registrado há sete anos. Na maioria dos casos o fogo começou por problemas na ligação elétrica, diferente desta vez, em que foi provocado por um botijão de gás.

Área já foi considerada de risco, mas aguarda política habitacional

A comunidade da PC3 se instalou há cerca de 30 anos nas margens de um córrego que corta a região. A ocupação é considerada irregular pelo município. A comunidade está dentro de uma Área de Interesse Social Urbanizada, onde 38 famílias aguardam a remoção anunciada pela prefeitura.

Em 2012, após confirmar que as moradias precisavam ser removidas do local por conta dos riscos de desabamentos, incêndios, sem contar a situação de insalubridade por conta do córrego que corta o terreno das casas.

Após uma série de reuniões, em 2014, a prefeitura chegou a anunciar a remoção das famílias para terreno que fica a trezentos metros de onde as casas estão hoje. Um projeto chegou a ser desenvolvido pelo escritório modelo da Unisul (Universidade do Sul de Santa Catarina) e na época os moradores receberam detalhes das habitações: os apartamentos de dois quartos teriam 45,23m² e os de três quartos, 53,24m². As obras foram prometidas para 2015, mas até hoje moradores aguardam manifestação da Prefeitura.

Locais para doações:

Roupas e mantimentos – PC3 (Avenida Juscelino Kubitscheck), Prefeitura (R. Tenente Silveira, 50 – Centro), Secretaria do Continente (R. João Evangelista da Costa, nº 827 – Jardim Atlântico), Pró-Cidadão (Av. Mauro Ramos, nº 224 – Centro).

Materiais de construção – PC3 e canteiro da Infraestrutura, entre o cemitério do Itacorubi e a Tecnópolis.

Incêndios na comunidade não são raros, mas o do último sábado foi o maior, segundo moradores - Marco Santiago/ND

Com informações ND