Por: Ricardo Gebeluca | 25/03/2020

A voz de Maria Aparecida Martinez, de 54 anos, se alternava entre a revolta e o choro. Mãe de Gabriel Martinez, de 26 anos, morto com suspeita de Covid-19 no último sábado (21), na Tijuca, Zona Norte, ela lamenta que o filho não tenha sido testado antes e tido a chance de receber o tratamento apropriado.

“Dói muito não ouvir a chave do meu filho na porta quando ele chega do trabalho. Nem o corpo do meu filho pude ver, o vi durante dois minutos, não pude tocar, nem pude me despedir. Só tenho forças para conversar com a imprensa porque quero alertar para que as pessoas saibam que o vírus não mata só os idosos ou as pessoas com doenças. Meu filho era saudável, nunca entrou em um centro cirúrgico, fez um check-up há um mês e meio e não deu nada”, conta.

A mãe do jovem detalhou a evolução do diagnóstico de Gabriel:

  • No sábado (14), o jovem estava bem e não apresentava sintomas
  • No domingo (15), Gabriel reclamou de febre e dor no corpo. “Como todos os meios de comunicação falam que devemos aguardar, nós ficamos monitorando”, conta ela.
  • Na segunda-feira (16), Maria Aparecida começou a ligar para todos os laboratórios, buscando comprar o teste para seu filho, mas nenhum tinha o teste disponível.
  • Nos dias que se seguiram, Gabriel seguiu observando os sintomas e fez um tratamento com antigripais. Ele sentia congestão nasal, tinha febre e cansaço físico, mas não sentia falta de ar.
  • Na quarta-feira (18), ele foi cedo para o Hospital Badim, na Tijuca. Lá, realizou exames de sangue e um eletro que detectou uma pequena mancha no pulmão. “Como ele estava muito congestionado, achavam que podia ser por isso, acho que não levaram tão a sério”, diz.
  • Ainda na quarta-feira (18), ele deixou o hospital, com uma receita de antibiótico e depois de ter tomado três bolsas de soro. Ele saiu com uma indicação para teste de covid-19, mas não conseguiu realizar o teste.
  • Nos próximos dias, Gabriel seguiu piorando e a febre não cedia.
  • No sábado (21), Gabriel voltou para o Badim e realizou um novo exame: “Nesse novo exame, mais da metade do pulmão dele já estava manchado”, diz a mãe.
  • No mesmo sábado (21), Gabriel morreu. “Ouvi do médico que realmente não há teste pra todos, que era a determinação do Ministério da Saúde”, diz ela.