Ponte Hercílio Luz como local turístico

Hercílio Luz

Os ferros de cor cinza se contrastam ao azul do céu, o chão de tabuleiro gradil, a grandiosidade perante quem passa por baixo e se sente pequeno. A reabertura da ponte Hercílio Luz em Florianópolis, após quase três décadas fechada reuniu centenas de moradores e visitantes na segunda-feira (30) para bater fotos, acreditar que ela voltou a funcionar ou ver de perto o reflexo de suas duas torres no mar. Todos com planos de passar pela estrutura nos próximos dias e continuar fazendo-o nos anos por vir.

 “A reabertura é uma grande conquista para Santa Catarina, é muito importante e a gente não deve parar aí. Deve seguir o caminho e atravessar a ponte rumo ao futuro. Ela é a nossa Torre Eiffel e compõe uma das paisagens urbanas mais bonitas do país”.

A fala de Dalmo Vieira Filho, arquiteto, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e especialista em Patrimônio Cultural e Planejamento Urbano vai ao encontro das intenções da Prefeitura de Florianópolis e do Governo de Santa Catarina de consolidar a ponte Hercílio Luz como atração turística que priorize espaços coletivos e humanizados, além de ser uma possibilidade para ajudar a melhorar a mobilidade na capital.

 “O entorno da ponte como belvedere turístico e cultural vem há tempos sendo debatido. Mas através do Ponte Viva que estamos buscando efetivar. É uma ideia que sempre esteve presente entre os urbanistas”, detalhou Michel Mittmann, secretário de Mobilidade e Planejamento Urbano de Florianópolis.

Prioridade para o transporte coletivo

Após o desfile de carros antigos durante a reabertura da ponte, veículos particulares e compartilhados não têm data exata para retornar à ponte. A permissão para carros deve ser avaliada pela prefeitura no segundo semestre. Por enquanto, o transporte coletivo terá prioridade.

“A prioridade do transporte coletivo vem sendo trabalhada há mais de 2 anos, pois é a forma mais eficiente de uso. A possibilidade de apresentarmos efetivamente uma renovação de paradigma. Temos que ter um casamento entre mobilidade e os outros temas, por isso a necessidade de um acalmamento do trânsito no entorno, para que tenhamos um lugar humanizado”, diz Michel Mittmann.

Após a reabertura, serão feitas avaliações quinzenalmente de como foi o uso por determinados modais antes de se liberar o tráfego do próximo. Desta maneira, por enquanto, o trânsito na ponte Hercílio Luz está permitido para pedestres e ciclistas.

A partir de 13 de janeiro, a linha 1119 – Ponte Viva que está circulando gratuitamente no Centro passará pela ponte, junto de 11 linhas executivas. Já em 3 de fevereiro, além das executivas, vão passar 12 linhas convencionais, sendo que três delas serão criadas para a região. Em 2 de março a prefeitura pretende que 35 linhas de ônibus estejam passando pela ponte.

Com isso, a prefeitura espera que até abril de 2020 aproximadamente 72 mil passageiros tenham passado pela ponte. No segundo semestre do ano que vem, novas linhas de ônibus devem ser implantadas, segundo a Secretaria de Mobilidade.

A expectativa é que 100 mil pessoas tenham utilizado o transporte coletivo na ponte até o fim de 2020.

Segurança na ponte de ferro na beira do mar

Na restauração da ponte foi criada mais uma passarela de pedestres, sendo que agora são duas, uma em cada lado da pista de veículos, que fica ao centro. “Antes da reforma a ponte tinha 4,5 mil toneladas e agora tem 5 mil toneladas. Ela foi de madeira, passou pelo asfalto e agora colocamos o tabuleiro rodoviário, que é mais leve. Mas criamos mais uma passarela de pedestres e por isso ela ficou mais pesada”, explicou o secretário-adjunto de Estado da Infraestrutura, Thiago Vieira.

Apesar de por enquanto carros particulares não poderem circular na ponte, o secretário-adjunto de Infraestrutura de Santa Catarina garante que a Hercílio Luz está segura. “A ponte está 100% segura, os cálculos foram feitos para garantir essa segurança, está mais segura que nunca”, disse Vieira.

O secretário e o arquiteto Dalmo Filho atribuíram a dificuldade de se manter a arquitetura original garantindo a segurança como um dos motivos para a demora na restauração da ponte.

“Havia um grande debate, opiniões diferentes, sobre os problemas e como se resolver. E se levaram alguns anos até que houvesse recursos e projeto adequado de recuperação”, explicou Dalmo.

A ponte foi inaugurada em 13 de maio de 1926. Desde então, passou por duas interdições totais. Somente o projeto de restauração e reabilitação, apresentado em 2005, deverá custar mais de R$ 486 milhões, conforme dados do governo. Paralelo a isso, uma investigação na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) aponta que os gastos foram de R$ 688 milhões, levando em conta o dinheiro usado desde a década de 1980.

Os materiais disponíveis na década de 20 estavam entre os fatores para que a ponte fosse construída com ferro, mesmo estando na beira do mar. E isso acelerou a deterioração da ponte, associada à falta de manutenção ao longo dos anos.

“A ponte estava em estado lastimável. Um dos desafios era de reconstruir dentro de um cenário atual, e foi desenvolvida uma liga de aço especialmente para a Hercílio Luz, mais resistente ao mar, a variações térmicas”, afirmou Vieira.

Para evitar que a ponte precise novamente ser interditada no futuro, deve haver manutenção. No entanto, o Governo do Estado não sabe exatamente como deve funcionar este trabalho. A definição deve ocorrer no próximo semestre, quando a obra de recuperação for totalmente concluída.

“Um dos nossos compromissos é que não voltemos a viver o descaso que teve com a ponte. Uma das obrigações da empresa é de entregar junto com a obra, em março, quando termina o contrato, um plano de manutenção e a partir daí planejar manutenção”, explicou.

Filhotes da ponte Hercílio Luz

Os ferros que auxiliaram na sustentação da ponte Hercílio Luz durante a sua restauração serão utilizados em outras 531 pontes em todo estado catarinense. Na cerimônia de reabertura, o Governo e a Defesa Civil assinaram um termo de cooperação para entrega de algumas das estruturas para o município de Biguaçu, na Grande Florianópolis. Ao menos 16 cidades assinaram o termo para receber kit metálicos provenientes da ponte, segundo o Poder Executivo estadual.

“Desse limão faremos uma limonada e em todo Estado terá uma ponte filha da Hercílio Luz”, afirmou o governador Carlos Moisés durante a reabertura da ponte. Segundo o Governo do Estado, esta também é uma maneira de aproximar os moradores de todo estado do cartão postal.

“Ela fechada era um dos símbolos de Santa Catarina e agora aberta, será um dos símbolos do Brasil”, afirmou o secretário Thiago Vieira.

Prazos para humanização da ponte

Para efetivar a ponte como local turístico, de permanência das pessoas, o Governo do Estado pretende entregar em março, quando termina o contrato com a empresa portuguesa Teixeira Duarte, responsável pela obra, a ponte com todos os seus entornos liberados para que haja espaços de permanência para as pessoas, o que deve ser feito na melhoria de canteiros e nas negociações de desapropriações de algumas áreas.

“Tratamos de criar a discussão técnica utilizando-se de dados sobre como utilizar a ponte para termos mais eficiência na mobilidade, mas fundamentalmente para efetivar o início de um processo que será longo da construção de um lugar turístico, cultural, de vivência do patrimônio. Daqui para a frente muito ainda será debatido e desenvolvido tendo a ponte e seus entornos como tema”, explica Michel Mittmann.

Segundo ele, o planejamento para a área é dividido em:

  • Conectividades e entorno imediato – conectar a ponte a estrutura da cidade e seus lugares urbano-turísticos, com atenção aos terrenos próximos das cabeceiras que terão papel na organização de espaços de apoio, museus, conexão com os fortes, avenidas Beira-Mar tanto continental como insular;
  • Planos especiais para o entorno, que precisam ser desenvolvidos para que se tenham ocupações adequadas na área, seja com usos, seja com arquitetura e implantações;
  • Planos das orlas, tendo a ponte como elo entre as baías Norte e Sul e o conjunto de espaços públicos da orla.

Ainda conforme o secretário municipal, parte dessas etapas e projetos está sendo trabalhada de maneira preliminar e deve ser desenvolvida em 2020. Será no mesmo ano também, após a entrega total da obra, que o Governo do Estado deve estabelecer melhor como será o uso da área, com possibilidade de concessão, mas sem datas definidas para possíveis editais.

“A gente deve fazer concessões, construir um modelo para que a ponte seja autossustentável, para que isso possa reverter para a ponte áreas de café, bares, restauração, explorar o turismo cultural. Ela reabre rejuvenescida, reabre como ligação e polo turístico e cultural”, afirmou o secretário estadual de Infraestrutura.

“A grandeza, a beleza e a funcionalidade fizeram com que a ponte fosse adotada por toda população e ela é o local onde devemos celebrar nossa condição de capital ilha. A Hercílio Luz continua sendo uma obra de engenharia no mundo, volto a dizer que é a nossa Torre Eiffel, não ser o pano de fundo e sim ser protagonista. A gente precisa otimizar esse papel, ela tem uma dimensão maior, é o cenário do reencontro da cidade com o mar”, finaliza Dalmo Vieira Filho.