Por: Redação | 25/03/2021

O novo coronavírus pode permanecer ativo no organismo de alguns pacientes com sintomas leves por mais de 30 dias, período superior à recomendação de isolamento de 14 dias. Isso é o que estudos conduzidos no Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo (IMT-USP) têm apontado.

Em artigo divulgado na plataforma medRxiv, em processo de revisão por pares, o grupo de pesquisadores descreve o caso de duas pacientes em que o vírus da Covid-19 permaneceu ativo no organismo por mais de 30 dias. Nesse período, elas também permaneceram transmitindo a doença.

 

 

Uma delas foi atendida pela primeira vez em meados de abril de 2020 e relatou que vinha há 20 dias vivenciando sintomas como tosse seca, dor de cabeça, fraqueza, dor no corpo e nas articulações. Um exame de RT-PCR feito 22 dias após o início do quadro confirmou a presença do vírus no organismo e, nos dias seguintes, a paciente apresentou náusea, vômito, perda de olfato e paladar. Um segundo teste molecular feito 37 dias após o início dos sintomas também teve resultado positivo. Em meados de maio, a maioria das queixas havia desaparecido, exceto dor de cabeça e fraqueza.

Já no segundo caso relatado, a mulher apresentou febre, dor de cabeça, tosse, fraqueza, coriza, náusea, dor no corpo e nas articulações em meados de maio. Ela permaneceu sintomática durante 35 dias. O primeiro teste de RT-PCR foi feito cinco dias após o início dos sintomas e deu positivo. Como o problema persistiu, um segundo teste foi feito no 24º dia e, novamente, a presença do RNA viral foi confirmada.

— Após diversos testes, confirmamos que o vírus ali presente ainda estava viável, ou seja, era capaz de se replicar e de infectar outras pessoas — afirma a professora do IMT-USP, Maria Cassia Mendes-Correa, à Agência FAPESP.

Na avaliação da pesquisadora, portanto, os dez dias de isolamento recomendados atualmente pelo Centro de Controle de Doenças (CDC) dos Estados Unidos para casos leves podem não ser suficientes para evitar novas contaminações.

O grupo de cientistas também acompanhou durante seis semanas outros 50 pacientes para estudar o tempo de persistência do vírus no organismo.

— As análises indicam que o RNA viral permanece detectável por mais tempo na saliva e na secreção nasofaríngea. Em 18% dos voluntários, o teste de RT-PCR nesse tipo de amostra permaneceu positivo por até 50 dias. Entre estes, 6% mantiveram-se transmissores [com o vírus ainda se multiplicando] durante 14 dias — explica.

 

Transmissão pode ocorrer por meses

A pesquisa conduzida no IMT-USP também monitorou indivíduos imunossuprimidos infectados pelo novo coronavírus. Até o momento, dez voluntários já foram incluídos no projeto e um deles permanece com a infecção ativa no organismo há mais de seis meses.

— Trata-se de um paciente submetido a um transplante de medula óssea antes de ocorrer a infecção. As análises indicam que a carga viral em seu organismo é elevada e que o vírus é altamente infectante. Por esse motivo ele continua em isolamento, mesmo passado um longo período após o início dos sintomas — destaca Mendes-Correa.

A pesquisadora ressalta a necessidade de monitorar com atenção casos como esse, que oferecem condições ideais para o surgimento de variantes virais potencialmente mais agressivas.

Com informações da Agência FAPESP