Por: Ana Carolina Souza | 12/04/2018

Na crônica Pertencer, publicada no livro “A descoberta do mundo”, Clarice reconta de forma poética o mais tenro desejo de uma pessoa, aquele trazido do berço, dos tempos em que braços esticados buscam um enlace, o do pertencimento. Há, no entanto, a quem esse desejo é recusado, como uma carta reenviada ao remetente.
Entre janeiro de 2016 e junho de 2017, exatas 192 crianças foram devolvidas por candidatos a adoção em Santa Catarina. Das 63 que depois de experimentar convívio familiar tiveram que retornar para abrigos, seis estavam com processos de adoção concluídos. Uma triste realidade identificada pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
Dados dão conta de que no ano passado 1.991 pequenos brasileiros foram reconduzidos às instituições. Ainda que imprecisos, muitos são os motivos. O maior, e inequívoco, é a falta de construção de laços afetivos.
Fazer voltar uma criança é uma situação espinhosa. Menina ou menino que vai para adoção carrega a marca de alguma violação. Foram encaminhados para instituições por maus-tratos, negligência, abuso sexual, morte dos pais.
O regresso tende a renascer nelas as marcas dos dissabores.
Os números do CNJ revelam uma balança injusta. Para esses quase 2 mil brasileirinhos devolvidos no ano passado, 1.715 foram adotados. Em Santa Catarina, a diferença também pesa: 68 foram adotados, apenas cinco a mais do que os 63 devolvidos no mesmo período.
Proporcionalmente, é maior o número de crianças que consegue se manter na família adotante. Mas há casos em que elas passam por uma, duas, três famílias.
Todos os estudos acerca do tema descrevem uma surra emocional. A criança devolvida sofre novo abandono e enfrenta mais uma vez a ruptura de vínculos – diz Sabrina Suzin, assistente social forense em Rio do Sul, cidade de 66 mil habitantes no Vale do Itajaí a 190 quilômetros de Florianópolis.
Como reparar o dano psicológico, afetivo e moral numa criança que já carrega um histórico de perdas? Além do dano material, já que ao retornar para o abrigo ela deixa na casa onde estava bens e conforto que não estarão mais disponíveis.
Para a assistente social, a questão não é a reparação em si. Mas que equipes técnicas do Judiciário ofereçam acompanhamento terapêutico sério e comprometido que dê à criança a possibilidade dela ressignificar o acontecimento.
A marca vai ficar na história dessa criança. Mas a ressignificação poderá fazer a diferença na vida dela.